Acredito que esse engajamento reflete o desejo do brasileiro pelo inédito prêmio do Oscar. Batemos na trave quando "Central do Brasil" concorreu com o comovente "A Vida é Bela" em 1999, e quando "Cidade de Deus" recebeu quatro indicações, mas foi ofuscado pelo fenômeno "O Retorno do Rei", que arrebatou nada menos que onze estatuetas em 2004, igualando o recorde de "Ben-Hur" e "Titanic". Desde então, enfrentamos um hiato de vinte anos sem indicações de filmes brasileiros ao Oscar.
Durante anos, ouvi de um amigo argentino: "O Brasil pode ser pentacampeão no futebol, mas a Argentina tem cinco prêmios Nobel e dois Oscars, enquanto seu país não tem nenhum. O que é mais importante?" Confesso que era doloroso ouvir isso e, tristemente, admitir que, como evidenciou Nelson Rodrigues, a relação do brasileiro com a seleção de futebol parece definir nossa identidade nacional. Se algum dia conquistássemos reconhecimento internacional, seria apenas como "o país do futebol" e nada mais. Como brilhantemente definiu Rodrigues, seríamos uma eterna "Pátria de Chuteiras".
De fato, sobre o Brasil e a América Latina paira um certo isolamento estereotipado — não apenas geográfico, mas também cultural, histórico e político — fruto de um sentimento de marginalização em relação ao mundo ocidental.
Ao receber o Prêmio Nobel por sua obra, Gabriel García Márquez retratou a América Latina como um lugar onde a realidade se mistura com o mito, onde os acontecimentos históricos muitas vezes assumem contornos fantásticos e onde a identidade regional foi moldada por ciclos de violência, esquecimento e solidão. O isolamento, portanto, seria menos físico e mais um estado de espírito — uma solidão imposta por fatores externos e reforçada internamente por um certo sentimento de inferioridade ou esquecimento.
Dessa forma, quando o filme de Walter Salles, estrelado por Fernanda Torres, rompe essa barreira e nos conecta ao cenário cinematográfico internacional, os brasileiros parecem despertar de uma letargia e abraçar a causa de conquistar esse título inédito como uma espécie de redenção de nossa posição periférica no cenário cultural mundial. Seria o reconhecimento de que nossos dramas também são universais e merecem ser contados pela sétima arte.
Apesar da frustração por não termos vencido o BAFTA — considerado o Oscar britânico —, o Globo de Ouro e a empolgação dos brasileiros parecem embalar o Brasil rumo a essa conquista inédita. Ganhar o Oscar teria um impacto simbólico e cultural significativo, elevando a percepção da produção cinematográfica nacional no cenário internacional.
Você está nessa torcida? No dia 2 de março de 2025, teremos três chances.